quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

CUIDADOS NA PREVENÇÃO DA LUXAÇÃO DE OMBRO EM PACIENTES NEUROLÓGICOS

CUIDADOS NA PREVENÇÃO DA LUXAÇÃO DE OMBRO EM PACIENTES NEUROLÓGICOS
CARE IN THE PREVENTION OF DISLOCATION SHOULDER IN NEUROLOGICAL PATIENTS.


GLEIDSON FRANCIEL RIBEIRO DE MEDEIROS. Especialista em Avaliação Fisioterapêutica pela UFRN, Fisioterapeuta do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL/UFRN); Fisioterapeuta do Centro de Reabilitação Adulto (Secretaria de Saúde do Estado do RN); Preceptor da Residência Multiprofissional em Saúde do HUOL/UFRN. Autor do livro: GUIA ILUSTRADO DE CINESIOTERAPIA NEUROLÓGICA BÁSICA.

O ombro é, de todas as articulações do corpo humano, a mais móvel, possuindo três graus de liberdade e três eixos, o que permite orientar o membro superior em relação aos três planos do espaço.
Em virtude de sua pouca profundidade, esta articulação necessita de uma forte estabilização para se evitar suas luxações. Tal função é realizada por estabilizadores estáticos (cápsula articular e ligamentos), que promovem um equilíbrio articular moderado e contínuo; e os estabilizadores dinâmicos (músculos transversais e longitudinais), que provocam uma firmação variável do ombro, conforme a situação cinética em que este se encontre.
Os músculos periarticulares transversais (supra-espinhal, subescapular, infra-espinhal, redondo menor, tendão da porção longa do bíceps), proporcionam, na medida em que se contraem, a coaptação das superfícies articulares, encaixando a cabeça umeral na cavidade glenóide. Por sua vez, os músculos longitudinais do braço e da cintura escapular, impedem, mediante sua contração tônica, que a cabeça umeral se luxe por baixo da cavidade glenóide, quando estiver, por exemplo, sob tensão de uma carga mantida na mão; tracionado por alguma manipulação, ou mesmo pelo próprio peso do membro superior.
Esta luxação inferior, denominada “síndrome do ombro caído", é bastante frequente quando os músculos do braço e do ombro encontram-se paralisados. Assim, dentre os pacientes críticos, que estão sedados ou comatosos em uma UTI; àqueles que jazem há muito tempo confinados a um leito; ou ainda, aos acometidos por morbidades neurológicas agudas; é bastante comum se observar a referida luxação. A falta de estabilidade da articulação, causada pela deficiência dos estabilizadores dinâmicos; associada aos erros no manuseio do doente, por imperícia ou negligência dos cuidadores; são as causas desta complicação, que traz para o indivíduo sérios prejuízos futuros.
A luxação do ombro em sua fase inicial se apresenta clinicamente com um quadro flogístico e uma franca instabilidade articular; evoluindo em alguns dias para a restrição da amplitude de movimento, em virtude das aderências e dos espasmos protetivos que se manifestam em volta do ombro luxado; podendo até, em situações extremas, para uma anquilose da articulação.
Entendendo que tais complicações podem trazer conseqüências drásticas à reabilitação do indivíduo, é imprescindível que se tomem algumas medidas, com o escopo de se prevenir este mal., dentre elas destaca-se a orientação e o treinamento da equipe de enfermagem e dos cuidadores em geral, quanto ao manuseio dos pacientes durante certas atividades: banho, transferências, mudanças de decúbito, etc.
Outro procedimento preventivo é a estabilização externa da articulação do ombro, que irá minimizar frouxidão articular, causada pela situação de morbidez em que o indivíduo se encontra. Este objetivo pode ser alcançado a partir de bandagens funcionais (em nossa realidade de hospital público, não dispomos das bandagens, mas fazemos uma adaptação com esparadrapo que, apesar de ter um efeito bem menor, se aplicado da maneira correta, também oferecerá uma proteção razoável ao ombro), enfaixamentos, eletroterapia (ressalvando-se algumas situações nas quais existem contra-indicações relativas), e finalmente a cinesioterapia (em nosso serviço, a depender do caso, optamos pela FNP).
A posição funcional do ombro é aquela em que acontece o estado de equilíbrio de seus músculos periarticulares. Por isso, este posicionamento é utilizado para se realizar as técnicas de imobilização, sobretudo nos casos das fraturas da diáfise umeral. Nesta posição, o eixo longitudinal do braço está em flexão de 45° e abdução de 60°, isto é, se encontra no plano vertical formando um ângulo oblíquo de 45° com o plano sagital e o braço está em rotação interna de 30-40°. (Também utilizamos desta posição inicial para realizarmos tanto o enfaixamento quanto a bandagem em nossos pacientes).
Figura 1: Enfaixamento para estabilização do ombro hemiplégico – FONTE: Do autor.


Figura 2: Estabilização do ombro hemiplégico com esparadrapo. FONTE: Do autor.


REFERÊNCIA:
KAPANDJI, A. I. Fisiologia Articular. Esquemas comentados de mecânica humana. V.1, 5ed. Panamericana, SP; Guanabara Koogan, RJ. 2000.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

ORIENTAÇÃO EDUCATIVA EM PACIENTES NEUROLÓGICOS CRÔNICOS: REMÉDIO PARA O PROBLEMA SOCIAL DA DEMANDA REPRIMIDA NOS SERVIÇOS PÚBLICOS DE FISIOTERAPIA? (EDUCATIONAL GUIDANCE IN CHRONIC NEUROLOGICAL PATIENTS: MEDICINE TO THE PROBLEM OF SOCIAL SERVICES PUBLIC PHYSIOTHERAPY'S PENT-UP DEMAND?)

GLEIDSON FRANCIEL RIBEIRO DE MEDEIROS. Especialista em Avaliação Fisioterapêutica pela UFRN, Fisioterapeuta do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL/UFRN); Fisioterapeuta do Centro de Reabilitação Adulto (Secretaria de Saúde do Estado do RN); Preceptor da Residência Multiprofissional em Saúde do HUOL/UFRN. Autor do livro: GUIA ILUSTRADO DE CINESIOTERAPIA NEUROLÓGICA BÁSICA.
 

É bastante comum encontrarmos, nos mais diversos serviços públicos de fisioterapia, enormes listas de espera de pacientes neurológicos. São geralmente pessoas com anos de seqüela, que já passaram por diversos outros serviços e permanecem em busca de algum lugar que os acolha, lhes preste alguns cuidados e lhes alimentem esperanças.
Este fragmento da realidade na fisioterapia neurofuncional pública, é o retrato de uma sociedade mal assistida em seu direito fundamental à saúde; desde a atenção primária (medicina preventiva), que por inexistir ou funcionar inadequadamente, é incapaz de prevenir certas doenças como a hipertensão arterial, sobretudo na população SUS dependente, ocasionando registros crescentes, de pacientes cada vez mais jovens, vítimados pelo AVC; até a atenção terciária (Reabilitação), que se mostra falha na assistência (pois lhes faltam profissionais nos centros e ambulatórios públicos; ou, quando tem um contingente satisfatório, estes não conseguem prestar um serviço de qualidade, pois lhes faltam: estrutura física, motivação financeira, e o pior de tudo, apreço profissional).
Os resultados de tudo isto são os ambulatórios e clínicas superlotadas com listas infindas de espera, das quais muitos pacientes jamais chegarão a ser contemplados com uma vaga; pacientes mal reabilitados, com grandes seqüelas, majoradas pela demora no início de seus tratamentos e pelos péssimos serviços terapêuticos que lhes são prestados; e uma insatisfação generalizada com o sistema de saúde e especificamente com os serviços públicos de fisioterapia.
Algumas ações são esquadrinhadas como tentativa de solução ou minimização deste problema. É comum, por exemplo, que certas famílias busquem na justiça a solução para seu “problema particular” e conseguem, por decisão judicial, fundamentado na Constituição: Art. 196. A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação, o atendimento de seu ente querido. Porém, esta solução é apenas um paliativo, pois, por traz deste sujeito que está recebendo atendimento, estão inúmeros outros que sofrem o amargor da desassistência.
Certamente, para que os direitos sociais sejam efetivados, depende-se da existência de recursos por parte do Estado, ou seja, os direitos serão efetivados na medida do possível. Contudo, este princípio, a RESERVA DO POSSÍVEL, não deve sobremaneira constituir um empecilho à efetivação dos direitos fundamentais sociais, sobretudo à saúde. Não se pode usar este princípio simplesmente para limitar a efetivação dos direitos, mas para administrá-los de forma mais equânime e, consequentemente, mais justa e eficiente. Deve-se, pois, otimizar o gerenciamento dos serviços, eleger prioridades e buscar estratégias que possibilitem a maior cobertura possível destes direitos à população.
Algumas sugestões práticas para a resolução desta querela são:
·         Adoção de um protocolo com procedimentos, critérios de admissão e alta bem definidos (o que melhorará a qualidade da reabilitação dos paciente e, consequentemente, a rotatividade destas pessoas nos serviços);
·         Formação de grupos de orientação e treinamento de cuidadores para pacientes crônicos já em fase final de reabilitação;
·         Formação de grupos de orientação e treinamento de cuidadores para pacientes crônicos sequelados que não tiveram tratamento adequado nos momentos iniciais da doença;
·         Formação de grupos de estudo (estudos de caso, treinamentos, seminários) entre os membros da equipe.

RELATO DE EXPERIÊNCIA
Estamos iniciando um grupo de orientações para pacientes com Lesão Medular, Parkinson e AVC; crônicos e que estão em lista de espera há mais de seis meses. Será escolhido um dia na semana em que estes pacientes serão recrutados, avaliados, orientados (juntamente com seus acompanhantes/cuidadores) e remarcados periodicamente (mensalmente ou trimestralmente, a depender do caso), para revisões e novas orientações. Esperamos, com esta medida, melhorarmos a qualidade do serviço que prestamos em nosso ambulatório e, futuramente, quiçá, ampliemos os grupos. 
FICA A SUGESTÃO.


FIGURA: MODELO DE CARTILHA UTILIZADO NAS ORIENTAÇÕES AOS PACIENTES. 
FONTE: DO AUTOR.


REFERÊNCIAS:


PORTAL SISREG. Princípios do SUS. http://www.portalsisreg.epm.br/conteudo/principios.htm. 2004. Acesso: 26/01/12

GUERRA, Sidney; EMERIQUE, Lilian Márcia Balmant. O princípio da dignidade da pessoa humana e o mínimo existencial. Revista da Faculdade de Direito de Campos, Ano VII, Nº 9 - Dezembro de 2006.

WANG, Daniel Wei Liang. Reserva do possível, mínimo existencial e direito à saúde: algumas aproximações. Rev. Direito Sanit.,  São Paulo,  v. 10,  n. 1, jul.  2009 .   Disponível em <http://www.revistasusp.sibi.usp.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-41792009000100016&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  27  jan.  2012.

FIGUEIREDO,Márcia de Menezes Paranhos, BARBOSA, Márcia Cristina Catarino, MOREIRA, Maria Cecília Santos. Avaliação de um manual de exercícios domiciliares para pacientes externos de um ambulatório de bloqueio
Neuromuscular. ACTA FISIATR 2005; 12(1): 7-10

O Guia do Fisioterapeuta. Orientações domiciliares para hemiplégicos, tudo o que você sempre quis que os familiares soubessem, mas que ninguém jamais divulgou na internet.  http://fisioterapiahumberto.blogspot.com/2010/04/mobilidade-no-leito-para-hemiplegicos.html. Acesso em: 26/01/12.



“A eficiência e a eficácia devem ser buscadas constantemente em nossa profissão e sobretudo em nossa vida, para que possamos ser melhores ao nosso próximo”.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

FISIOTERAPIA NEUROINTENSIVA E OS CUIDADOS COM A HIPERTENSÃO CRANIANA (PHYSICAL THERAPY NEURO INTENSIVE AND CRANIAL HYPERTENSION'S CARE)


GLEIDSON FRANCIEL RIBEIRO DE MEDEIROS. Especialista em Avaliação Fisioterapêutica pela UFRN, Fisioterapeuta do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL/UFRN); Fisioterapeuta do Centro de Reabilitação Adulto (Secretaria de Saúde do Estado do RN); Preceptor da Residência Multiprofissional em Saúde do HUOL/UFRN. Autor do livro: GUIA ILUSTRADO DE CINESIOTERAPIA NEUROLÓGICA BÁSICA.

Dentre os cuidados que se deve ter com os pacientes neurológicos críticos, destaca-se a medida da pressão intracraniana. Seu aumento, também chamado de Hipertensão Intracraniana, pode causar ou majorar danos teciduais no cérebro e, consequentemente, prejudicar suas funções temporária ou permanentemente.
As principais causas da hipertensão craniana no adulto são: os traumatismos crânio-encefálico, sobretudo os fechados; o acidente vascular encefálico; e as craniotomias. Ressalvando-se ainda as etiologias extra-encefálicas: cárdio-circulatórias, destacando-se a hipertensão arterial sistêmica; respiratórias e metabólicas, ressaltando-se os tumores e as alterações gasométricas; e mecânicas, provocadas, sobretudo, pela postura e manipulação inadequadas do paciente.
A pressão existente dentro da caixa craniana está relacionada com o equilíbrio entre um componente estático: o diâmetro da calota craniana, e três dinâmicos: o parenquimatoso, constituído pelas estruturas encefálicas; o liquórico, determinado pelo líquido cefalorraquidiano das cavidades ventriculares e do espaço subaracnóideo; e o vascular cerebral, estabelecido pelos valores instantâneos de sangue circulante no cérebro. Assim, quaisquer alterações de demanda: liquórica, parenquimatosa ou sanguínea, provocarão o episódio hipertensivo, pois a mínima capacidade de expansão da calota craniana, sobretudo no adulto, agrava a distorção nas relações entre os referidos componentes e, consequentemente, na medida de pressão no interior do crânio. Contudo, a Pressão Intra Craniana é normalmente avaliada pela coação do líquido cefalorraquidiano sobre os tecidos cerebrais. Seus limites fisiológicos estão entre de 5 e 15 mmHg, e o episódio hipertensivo será identificado  nos casos de majoração deste limite máximo.
O quadro clínico da hipertensão craniana de instalação subaguda ou crônica inclui: cefaléia, estase venosa, edema de papila e eventuais hemorragias peripapilares, estrabismo convergente, hérnias encefálicas, alterações visuais, vertigens, zumbidos, crises convulsivas, distúrbios neurovegetativos e de consciência, diversas alterações mentais: déficit de memória, de atenção, de orientação, apatia, depressão e alterações de personalidade.
FIGURA 1: Herniações cerebrais:
a. hérnia do giro do cíngulo;
b. hérnia transtentorial: uncus temporal;
c. hérnia central;
d. hérnia lobular parietal;
e. hérnia da amígdala (tonsilar).

FONTE: http://www.sistemanervoso.com/images/anatomia/vse_i_52.jpg

Figura 2: RNM mostrando hematoma epidural e hérnia uncalFONTE: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/5c/Brain_herniation_MRI.jpg/230px-Brain_herniation_MRI.jpgiação uncal

Dentre as formas de se minorar a hipertensão craniana, ressalta-se à prática clínica da fisioterapia neurointensiva o controle dos fatores extra-encefálicos, que mostram ter significantes efeitos na circulação cerebral e consequentemente, na pressão intracraniana. Assim, o fisioterapeuta neurointensivista deve voltar-se para as rédeas e monitoração de quesitos como: os níveis de dióxido de carbono e oxigênio, uma vez que, tanto a hipercapnia quanto a hipoxemia podem provocar a hipertensão craniana; a primeira por causar uma vasodilatação cerebral, a segunda por induzir a elevação do fluxo sanguíneo cerebral. Deve tomar ainda outras providências: manter sempre o paciente em decúbito elevado entre 30 e 45°, para que a gravidade facilite o retorno venoso cerebral, diminuindo a estase sanguínea; posicionar sempre a cabeça em linha média para evitar a compressão dos vasos do pescoço e, consequentemente, a perfusão cerebral irregular; evitar ou, se for extremamente necessário, realizar com cautela algumas manobras e técnicas fisioterapêuticas que, de per si, podem gerar aumento da pressão intracraniana: compressão e descompressão do tórax, percussão torácica, drenagem postural e aspiração traqueal.
Uma alternativa sugerida para se realizar tais procedimentos com menos riscos ao paciente, é fazer, previamente à fisioterapia respiratória, uma estimulação sensorial parassimpática utilizando técnicas do método Rood.

FIGURA3: Algorítimo do manejo da hipertensão craniana.
FONTE: Katia M. Giugno; et al. 2003.

REFERÊNCIAS:

BRIMIOULLE, S. et al: Effects of positioning and exercise on intracranial pressure in a neurosurgical intensive care unit. Physical Therapy. 77: 1682 - 1689, 1997.

CARLOTTI JR CG; COLLI BO & DIAS LAA. Hipertensão intracraniana. Medicina, Ribeirão Preto, 31: 552-562, out./dez. 1998.

ERSSO
N, U. et al: Observations on intracranial dynamics during respiratory physiotherapy in unconscious neurosurgical patients. Acta Anaesthesiol Scand 34: 99 - 103, 1990.

GUYTON, A. C.: Fisiologia Humana. 10ª.ed., R.J.: Guanabara Koogan, 2002.

KATIA M. Giugno; TÂNIA R. Maia; CLÁUDIA L. Kunrath; JORGE J. Bizzi. Tratamento da hipertensão intracraniana. Jornal de Pediatria, 0021-7557/03/79-04/287. 2003.

ROSANA A. Thiesen; DESANKA Dragosavac; AUGUSTO C. Roquejani; ANTÔNIO L.E. Falcão; SEBASTIÃO Araujo; VENÂNCIO P. Dantas Filho; ROSMARI A.R.A. Oliveira; RENATO G.G. Terzi. Influência da fisioterapia respiratória na pressão intracraniana em pacientes com traumatismo craniencefálico grave. Arq Neuropsiquiatria 63(1):110-113, 2005.



http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/5/5c/Brain_herniation_MRI.jpg/230px-Brain_herniation_MRI.jpg

http://www.sistemanervoso.com/images/anatomia/vse_i_52.jpg

sábado, 19 de novembro de 2011

MÉTODO ROOD: NOVOS DESAFIOS. (METHOD ROOD: NEW CHALLENGES).

GLEIDSON FRANCIEL RIBEIRO DE MEDEIROS. Especialista em Avaliação Fisioterapêutica pela UFRN, Fisioterapeuta do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL/UFRN); Fisioterapeuta do Centro de Reabilitação Adulto (Secretaria de Saúde do Estado do RN); Preceptor da Residência Multiprofissional em Saúde do HUOL/UFRN. Autor do livro: GUIA ILUSTRADO DE CINESIOTERAPIA NEUROLÓGICA BÁSICA.

O método de estimulação sensório-motora de Rood é fundamentado na teoria Hierárquica do controle motor, baseada na idéia de evolução ontogenética do sistema nervoso. Deste modo, Margareth Rood classificou os neurônios e terminações nervosas em uma ordem escalonada conforme o tipo, a localização, a resposta que produzem, seus neurotransmissores, etc. Então, ela propôs que a estimulação sensório motora deve obedece a uma sequência neuroevolutiva dos estímulos (Esteroceptivo, proprioceptivo e volitivo), e um de seus princípios diz que se deve regular previamente o sistema nervoso autônomo, a partir de uma estimulação sensorial específica, sempre que as disautonomias interferirem nas respostas motora do sujeito, por exemplo: espasmos, picos hipertensivos, taquicardias, rebaixamento do nível de consciência, dentre outras.
Com base nestes conceitos, Rood relata algumas regras para a estimulação sensorial, dentre elas destacam-se:
1-           estímulos rápidos e repetitivos, que provocam respostas motoras tônicas e, dependendo da área corporal, podem ativar o sistema nervoso simpático, cujas fibras são “adrenérgicas”;
2-           estimulação lenta e rítmica, que provoca uma  inibição mental e muscular, ativando as fibras nervosas “colinérgicas” do sistema nervoso parassimpático.
Além da freqüência dos estímulos, Rood descreveu pontos corporais (dermátomos e miótomos), e formas de incitação (tátil ou térmico) específicas para as diferentes respostas autonômicas (simpáticas e parassimpáticas). 

SISTEMA NERVOSO AUTÔNOMO    FONTE: http://www.fraternidaderosacruz.org/sna_s_e_p.jpg


Percebe-se, com esta narrativa, uma singular importância deste método para a fisioterapia neurointensiva, que atuará junto ao paciente neurológico agudo, grave, com prováveis alterações hemodinâmicas, de níveis de consciência, de pressão intra-craniana, dentre outras.
O coma, por exemplo, nos pacientes críticos, pode estar relacionado à própria injúria neurológica; ou pode ser induzido, quando o indivíduo encontra-se sedado, de, cujas finalidades são: facilitar o gerenciamento da ventilação mecânica, se for o caso; ou mesmo para proteger o sistema nervoso de eventuais injúrias secundárias. Entretanto, o rebaixamento dos níveis de consciência destes pacientes por tempo prolongado obsta substancialmente a sua recuperação, tanto do ponto de vista neuro-motor, quanto respiratório, e o fisioterapeuta neurointensivista, neste caso, pode atuar utilizando técnicas de Rood específicas para a ativação do sistema nervos simpático, que vão melhorar os níveis de prontidão deste paciente, acelerando o seu despertar após a sedação ter sido suspensa.
A estimulação simpática de Rood também pode produzir efeitos cárdio-vasculares, aumentando a pressão arterial e a freqüência cardíaca do sujeito, e pode ser utilizada, por exemplo, em pacientes instáveis, que mesmo fazendo uso de drogas vaso ativas, fazem bradicardia durante as manipulações da enfermagem, as manobras da fisioterapia respiratória e, sobretudo, durante a aspiração. Como os efeitos da estimulação simpática duram no máximo 3 minutos, o método deve ser aplicado e o paciente manipulado logo em seguida.
Outras técnicas específicas de Rood ativam o sistema nervoso parassimpático, o que provoca uma queda na pressão arterial sistêmica e a redução da frequência cardíaca. Importantíssimo para serem, por exemplo, aplicadas previamente às manobras de fisioterapia respiratória ou motora nos pacientes com AVC, traumatismo crânio encefálico, hidrocefalia, dentre outras doenças as quais, principalmente na fase aguda, apresentam hipertensão craniana; em pessoas com síndrome de Guillain Barré, que têm frequentemente crises de disautonomia, com taquicardia e picos hipertensivos, dentre muitas outras situações clínicas.
Apesar de ter sido “criado” há mais de cinqüenta anos, de toda a descrição neurofisiológica feita por Margareth Rood, e de suas excelentes respostas clínicas; os efeitos autonômicos e neuromusculares do método ainda não são comprovados por falta de evidências obtidas em pesquisas científicas. Destarte a riqueza de informações que o método apresenta, muitos profissionais desconhece-no, ou só o utilizam, muitas vezes inadequadamente, para estimulação motora de pacientes crônicos com lesões nervosas periféricas.  É preciso, pois, ousar, investigar, desbravar novos caminhos, atualizar os conceitos, enfim, transformar em ciência a arte de tratar.


REFERÊNCIAS:
Downie, Patrícia A. Cash: Neurología para fisioterapeutas. 4ª. Buenos Aires : Panamericana, 2006.
Gardiner, M. Dena. Manual de terapia por exercícios. São Paulo : Livraria e editora Santos, 1986
 Medeiros, Gleidson Franciel Ribeiro de: Guia Ilustrado de Cinesioterapia Neurológica Básica, Natal: Casa do Cordel, UFRN, 2011.
Stokes, Maria C. S. P. Neurologia para fisioterapeutas. São Paulo : Premier, 2000.


COMPLEMENTE ESTA LEITURA COM O GUIA ILUSTRADO DE CINESIOTERAPIA NEUROLÓGICA BÁSICA.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

CINESIOTERAPIA NEUROLÓGICA: DAS ORIGENS AOS NOSSOS DIAS. (kinesiotherapy neurological: the origins to our days)


GLEIDSON FRANCIEL RIBEIRO DE MEDEIROS. Especialista em Avaliação Fisioterapêutica pela UFRN, Fisioterapeuta do Hospital Universitário Onofre Lopes (HUOL/UFRN); Fisioterapeuta do Centro de Reabilitação Adulto (Secretaria de Saúde do Estado do RN); Preceptor da Residência Multiprofissional em Saúde do HUOL/UFRN. Autor do livro: GUIA ILUSTRADO DE CINESIOTERAPIA NEUROLÓGICA BÁSICA.

 O tratamento e cura das doenças neurológicas são grandes desafios para o homem, desde os tempos mais remotos. O relato mais antigo sobre este assunto é datado da época do Antigo Egito: O Papiro Cirúrgico de Edwin Smith de 1660 a.C. que consiste em um manuscrito com 48 ocorrências, citando aspectos clínicos e rituais terapêuticos, entretanto, para os casos neurológicos, os egípcios não previam tratamento, nem esperança de cura.

Papiro de Edwin Smith. FONTE: http://historiadelamedicina.org/blog/2008/04/21/el-papiro-de-edwin-smith/


No avançar dos séculos, chegando à antiguidade cristã, a correlação entre doença e pecado tornou-se cada vez mais forte e, eram realizadas verdadeiras cerimônias de “cura e libertação” pelo cristianismo nascente, atraindo muita gente que buscava alívio de seus penares ou um milagre “... levanta-te e anda!”.
Com o surgimento do pensamento moderno, que trouxe como características: o antropocentrismo, o tecnicismo e o cientificismo; surge a necessidade de se descobrir novas respostas, novos caminhos, novas curas, enfim, novas verdades. E, em meio a este cenário, os profissionais de saúde começam buscar explicações lógicas para as doenças, suas causas e, consequentemente, sistematizarem os “rituais” de tratamento. Contudo, ainda havia uma grande celeuma no tocante às doenças neurológicas.

O homem Vitruviano. Leonardo da Vinci (retrata o antropocentrismo modernista). FONTE: http://huxley-gilmour.blogspot.com/2010_04_01_archive.html


No século XIX, o suíço Dr. Frenkel propõe um programa de exercícios para o treinamento de pacientes com ataxia sensitiva. Usando princípios mais pedagógicos que clínicos, os exercícios de Frenkel marcam certo avanço no tratamento das doenças do movimento humano, causadas por transtornos neurológicos; contudo, ainda restava um vazio a ser preenchido: o tratamento das pessoas com paralisia. 

Circuitos para treino de marcha atáxica com Exercícios de Frenkel. FONTE: Do autor - Direitos autorais reservados


Sedentos por respostas, os ávidos olhares da neurologia do século XX, ingressam em uma nova era de descobertas e de esperanças, fundamentada em conceitos de neurofisiologia, pelos quais os tratamentos não mais se limitariam em reeducar movimentos inadequados, mas, seria possível também, estimular o surgimento de contrações musculares e movimentos outrora perdidos. Para isto, propuseram-se as técnicas cinesioterapeuticas de estimulação, facilitação, inibição e reeducação, que se agrupariam para formarem os métodos de cinesioterapia neurológica.
As teorias de controle motor somaram-se ao arsenal teórico dos estudos referentes motricidade humana e, por volta da década de 40, Herman Kabat, estudando a fisiologia da contração músculo-esquelética, encontrou na excitação do fuso muscular, a resposta para se potencializar as contrações fracas de músculos paralisados. E propôs, à luz da teoria reflexa do controle motor, um método terapêutico de Facilitação Neuromuscular, baseado na excitação Proprioceptiva do fuso muscular, a partir do estímulo de estiramento.
As idéias evolucionistas de Darwin também influenciaram os conceitos da cinesioterapia, que a partir da década de 50, se apegou à teoria Hierárquica do controle motor (As estruturas do sistema nervoso estão escalonadas, de modo que as superiores comandam as inferiores), e surgiram no universo científico-profissional, os métodos neuroevolutivos, baseados em conceitos do desenvolvimento ontogenético (Rood) e da maturação do sistema nervoso (Bobath), dentre outros.

Imagem representando o processo de corticalização durante a evolução da espécie humana, trazendo como consequência a sua verticalização. FONTE: Adaptação do autor.
 
ROOD EM PACIENTE CRÍTICO (UTI). Utilizando-se crioestimulação (atadura úmida gelada) e técnica de estimulação da mobilidade, na primeira postura ontogenética (supino). FONTE: Do autor. Direitos autorais reservados.

 Na década de 80, a biomecânica agrega esforços na fundamentação dos métodos e, as novas descobertas acerca da plasticidade neural fazem os estudiosos despertarem para uma nova teoria do controle motor, a Heterárquica, segundo a qual o sistema nervoso está totalmente interligado, formando uma verdadeira rede neural. Esta, também chamada “teoria dos sistemas”, defende a reabilitação neurofuncional a partir das técnicas de reeducação motora e fundamenta alguns métodos modernos, dentre eles, o Programa de Reaprendizagem Motora de Carr & Shepherd.
A cinesioterapia contemporânea aponta seus caminhos para uma realidade cada vez mais ampla e de conceitos mais precisos. Hoje, incluem-se no rol de saberes ligados a esta ciência: a cibernética, a robótica, a realidade virtual, dentre outros; que marcam o surgimento de uma nova proposição para o controle motor. A teoria ecológica, na qual ambiente e sujeito deixam de ser entendidos como duas realidades que se integram pelas sensações; para formarem um só sistema, cujos componentes são vinculados pela consciência, pela percepção e pelas abstrações da imaginação; poderosas ferramentas na plasticidade do cérebro.

Cérebro. FONTE: http://sophiaofnature.files.wordpress.com/2011/06/braingd.jpg


REFERÊNCIAS:

Carr, Janet e Shepherd, Roberta. Programa de reaprendizagem motora para hemiplégico adulto. São Paulo : Manole, 1988.

Downie, Patrícia A. Cash: Neurología para fisioterapeutas. 4ª. Buenos Aires : Panamericana, 2006.

Gardiner, M. Dena. Manual de terapia por exercícios. São Paulo : Livraria e editora Santos, 1986

Knott, Margareth e Voss, Dorott E. Proprioceptive neuromuscular facilitation, pattems and tech-niques. 2ª. New York : Harper and Row, 1968.

Stokes, Maria C. S. P. Neurologia para fisioterapeutas. São Paulo : Premier, 2000.

Tuoto, E. A. "Papiros Médicos Egípcios." In: História da Medicina by Dr Elvio A Tuoto (Internet). Brasil, 2010. Consulta em [dia, mês, ano]. Disponível em: http://historyofmedicine.blogspot.com/2010/05/papiros-medicos-egipcios.html


http://huxley-gilmour.blogspot.com/2010_04_01_archive.html

http://sophiaofnature.files.wordpress.com/2011/06/braingd.jpg 

COMPLEMENTE ESTA LEITURA COM O GUIA ILUSTRADO DE CINESIOTERAPIA NEUROLÓGICA BÁSICA. Falando diretamente com o autor: gfranciel@gmail.com Você pode adquirir o livro por um preço incrível: R$ 30,00 + frete. Para o RN o frete é grátis.

APROVEITE!!! 
PREÇO PROMOCIONAL ATÉ 20 DE DEZEMBRO DE 2011